Estratégia

Mudanças no Facebook afetam veículos de comunicação

Veículos perdem alcance com mudanças no algoritmo da rede, que prioriza posts de amigos e familiares no feed de notícias

Foi anunciado pelo Facebook, logo no início de 2018, que algumas mudanças serão feitas no algoritmo da rede social. Em uma publicação feita por Mark Zuckerberg na sua página, o co-fundador da rede explicou que esses ajustes serão realizados para deixar o Facebook mais próximo de suas raízes.

“Recentemente, recebemos feedback de nossa comunidade que conteúdo público – posts de negócios, marcas e mídia – está nos dispersando dos momentos pessoais que nos levam a nos conectar uns com os outros”, explicou. Por isso, com o objetivo de dar prioridade às publicações de amigos e familiares ao invés de propagandas ou marcas, o feed de notícias passará por algumas mudanças e textos jornalísticos, propagandas e publicações de marcas terão menos espaço.

Há anos a empresa vêm tentando priorizar conteúdos com alta qualidade, diminuindo a presença no feed de matérias sensacionalistas e fake news e encorajando publicações que causam maior engajamento.

“Estamos comprometidos em apoiar a construção de uma comunidade informada. Anunciamos no começo deste ano atualizações para priorizar no feed de notícias posts que geram conversas e interações significativas, e também notícias de qualidade, algo que nossa comunidade vinha nos pedindo. É importante lembrar que são muitos os sinais para determinar o que as pessoas veem no feed de notícias. Temos trabalhado continuamente para reduzir o alcance de posts não informativos e notícias falsas, e ajudar as pessoas no consumo consciente de informações, dentro e fora do Facebook. Um exemplo são os Artigos Relacionados, um recurso que oferece perspectivas adicionais quando uma pessoa compartilha uma notícia no Facebook”, diz a empresa, em nota.

Durante a conferência Recode’s Code Media, que aconteceu na última terça-feira (13/02), Campbell Brown, chefe de parcerias jornalísticas do Facebook, afirmou que seu trabalho “não é deixar os publishers felizes”. “Meu trabalho é garantir que haja notícias de qualidade no Facebook e que os publishers que desejam estar na rede tenham um modelo de negócios que funciona. Se alguém sentir que essa não é a plataforma certa para eles, eles não deveriam estar no Facebook”, ressaltou.

 

Como essas mudanças afetam marcas e veículos de comunicação?

Com mais de 2 bilhões de usuários mensais, o Facebook, maior rede social do mundo, possui uma receita anual de US$ 36 bilhões originada principalmente de publicidade. As mudanças anunciadas em janeiro irão afetar diretamente marcas e veículos de comunicação que utilizam o canal para se comunicarem com os seus clientes, mas a intenção da empresa é fazer com que a experiência dos usuários seja melhor. “Ao fazer essas mudanças, espero que as pessoas gastem menos tempo no Facebook e algumas medidas de engajamento também devem cair. Mas eu também espero que o tempo gasto no Facebook seja mais valioso”, ressaltou Zuckerberg, em comunicado.

A não ser que as empresas paguem para impulsionarem suas publicações na rede social, o alcance dessas páginas até seus usuários diminuirá significativamente. A medida afeta de maneira negativa marcas e empresas jornalísticas, que utilizam o canal para atraírem visitantes ao seu site e impactarem a sua audiência presente no Facebook.

Segundo a empresa, até então, o algoritmo do Facebook considerava quantas pessoas reagiam, comentavam e compartilhavam postagens para determinar quais delas seriam exibidas aos usuários. Agora, a prioridade será exibir conteúdos que motivem os usuários a conversarem e debaterem, e essa medida, de acordo com o Estadão, pode ter impacto na distribuição de notícias falsas na rede social.

“Páginas podem ver o seu alcance, tempo de visualização de vídeo e direcionamento de tráfego diminuir. O impacto irá variar de página para página, considerando fatores como o tipo de conteúdo produzido e como as pessoas interagem com ele”, avisou o CEO. “Algumas notícias ajudam a iniciar conversas sobre questões importantes. Mas muitas vezes, hoje, assistir a vídeos, ler notícias ou obter uma atualização de página é apenas uma experiência passiva”.

As primeiras mudanças serão vistas no feed de notícias, onde poderemos ver mais publicações de familiares, amigos e grupos. Além disso, conteúdos de páginas de veículos, marcas e propagandas serão priorizados caso incentivem a interação social, como por exemplo séries de televisão, times de modalidades esportivas, entre outros. Além disso, vídeos ao vivo transmitidos no Facebook irão aparecer cada vez mais. Esse tipo de conteúdo costuma fazer usuários interagirem na rede, superando seis vezes a interação em comparação com vídeos que não sejam ao vivo, de acordo com dados do próprio Facebook.

Para Zuckerberg, essas mudanças também podem trazer benefícios para os usuários da rede. “A pesquisa mostra que quando nós usamos as redes sociais para nos conectarmos com pessoas que gostamos, pode ser bom para o nosso bem-estar”, escreveu. “Nós podemos nos sentir mais conectados e menos sozinhos, e isso faz um paralelo com uma série de medidas sobre felicidade e saúde. Por outro lado, ler artigos passivamente ou assistir a vídeos – mesmo que eles sejam para entretenimento ou informativos – pode não ser tão bom”.

Essa não é a primeira vez que o Facebook anuncia mudanças a fim de priorizarem postagens de amigos e familiares. Em 2016, a rede resolveu fazer o mesmo, favorecendo postagens compartilhadas por pessoas que os usuários conheciam, e em 2015 a empresa disse que iria reduzir o alcance de páginas de empresas que não pagavam pelas suas publicações. Todas essas alterações estão sendo criticadas por especialistas pela falta de transparência do funcionamento do algoritmo do site, informações não divulgadas.

 

 

Veículos de comunicação e especialistas se manifestam contra decisão do Facebook

As mudanças no algoritmo da rede estão fazendo com que veículos de comunicação se sintam prejudicados. Na última semana (08/02), a Folha de São Paulo informou aos seus leitores que não vai mais publicar links de suas matérias ou qualquer outro tipo de conteúdo no Facebook.

O veículo possui 5,9 milhões de seguidores em sua página no Facebook, e de acordo com o comunicado oficial, a escolha foi tomada devido às mudanças no site, que irá priorizar publicações de amigos e familiares.

“No caso da Folha, a importância do Facebook como canal de distribuição já vinha diminuindo significativamente antes mesmo da mudança do mês passado, tendência observada também em outros veículos. Em janeiro, o volume total de interações (compartilhamentos, comentários e curtidas) obtido pelas 10 maiores páginas de jornais brasileiros no Facebook caiu 32% na comparação com o mesmo mês do ano passado, segundo dados compilados pela Folha”, explicou o jornal.

A Folha também argumentou que a medida tomada pelo Facebook reforça a tendência do usuário a consumir cada vez mais conteúdo com o qual tem afinidade, “favorecendo a criação de bolhas de opiniões e convicções, e a propagação de fake news”.

Segundo a Parse.ly, empresa de pesquisa e análise de audiência digital, a participação da rede social nos acessos externos caiu de 39% em janeiro de 2017 para 24% em dezembro. O veículo afirmou que não irá deletar a página do site para que os leitores possam continuar compartilhando seu conteúdo. No entanto, não será mais atualizada com novos posts.

Apesar de ter sido o primeiro grande veículo brasileiro a tomar essa decisão, diversos outros especialistas estão criticando as mudanças no algoritmo do Facebook. Rupert Murdoch, Presidente Executivo da News Corporation, um dos maiores grupos de mídia do mundo (com The Wall Street Journal e Fox News), emitiu recentemente um comunicado discordando da decisão da empresa. “Se o Facebook quer reconhecer os veículos mais confiáveis, deveria pagar a eles uma taxa semelhante à que as companhias da TV a cabo pagam para ter os canais na sua grade”, argumenta.

Para o especialista, o reconhecimento de um problema é um primeiro passo no caminho para a sua melhora, mas as medidas corretivas que o Facebook e o Google têm adotado até agora são inadequadas. “Os publishers estão, obviamente, aumentando o valor e a integridade do Facebook através de suas novidades e conteúdos, mas não estão sendo adequadamente recompensados por esses serviços. O pagamento de uma taxa teria um impacto mínimo nos lucros do Facebook, mas um grande impacto nas perspectivas para publishers e jornalistas”, acredita.

O ator Jim Carrey também se manifestou a respeito das mudanças na rede. Contra a decisão da empresa, postou em seu Twitter um desenho de Mark Zuckerberg e avisou que irá apagar sua página. “Estou vendendo minhas ações do Facebook a preço de banana e deletando minha página. Encorajo todos os outros investidores que se importam com o nosso futuro a fazerem o mesmo. #unfriendfacebook”, disse o humorista.

 

Jim Carrey avisa que irá apagar sua página do Facebook contra suas novas mudanças. Fonte: Adnews

 

Apesar de todas as críticas, a rede continua afirmando que irá seguir com a sua decisão de priorizar publicações de amigos no feed e notícias que permitem interação entre as pessoas, com o objetivo de melhorar a experiência dos usuários.

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