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Facebook: ações e valor de mercado caem após polêmica de vazamento de dados

Diversas marcas e usuários estão deletando suas contas da rede social, trazendo prejuízos para a empresa

O vazamento de dados de 50 milhões de usuários do Facebook pela empresa Cambridge Analytica em 2016 para a campanha política dos EUA foi divulgado na última semana pelo The Guardian e pelo The New York Times, gerando uma grande repercussão no mundo todo e trazendo impactos negativos para o Facebook. Na última semana, as ações da empresa caíram 13,89%, de acordo com a Bloomberg News, e o valor de mercado da plataforma já rendeu uma perda de US $74,6 bilhões.

A polêmica fez com que a rede perdesse a confiança de seus usuários, que estão questionando a transparência da empresa com a privacidade de suas informações pessoais. Uma pesquisa realizada pela Reuters e Ipsos nos Estados Unidos com 2.237 respondentes na última sexta-feira (23/03), mostrou que menos da metade dos americanos (41%) confia que o Facebook obedece às leis de privacidade do país, enquanto 62% dos respondentes confiam no Google e 66% na Amazon.com. Na Alemanha, uma pesquisa realizada pelo Bild am Sonntag, jornal de maior circulação do país, revelou que 60% dos entrevistados temem que o Facebook e outras redes sociais estejam causando um impacto negativo na democracia.

Para diversos especialistas, cada vez mais devemos entender a necessidade de um debate sobre o uso de dados e informações pessoais em plataformas de redes sociais. “O caso deixou evidente técnicas antiéticas para coleta de dados dos usuários e influência da opinião nas redes. A evidência de casos assim pode ajudar a trazer certa maturidade e senso crítico aos usuários das redes que provavelmente, passarão a ter mais critério antes de clicar no botão que autoriza a conexão com o Facebook”, afirma Eric Messa, coordenador do Núcleo de Inovação em Mídia Digital da FAAP, em entrevista ao Meio & Mensagem.

 

Facebook pede desculpas em jornais

Diante de toda a situação, no último domingo (25/03), Mark Zuckerberg, CEO do Facebook, publicou anúncios de uma página inteira em vários jornais como o Observer, no Reino Unido, e o The New York Times, Washington Post e Wall Street Journal, nos EUA, para pedir desculpas pelo escândalo de privacidade de dados da empresa.

Zuckerberg reconhece que a empresa poderia ter feito mais para impedir que milhões de usuários tivessem seus dados explorados pela consultoria em 2014, e garante que estão tomando medidas para que não aconteça novamente. “Temos a responsabilidade de proteger as suas informações. Se não conseguimos, não merecemos”, afirma o anúncio. “Isso foi uma quebra de confiança e eu sinto muito”.

 

Facebook pede desculpas em jornais do Reino Unido e Estados Unidos. Fonte: BBC

 

Zuckerberg repetiu também que o Facebook já havia mudado suas regras para que tal violação não ocorresse novamente. “Também estamos investigando cada aplicativo que teve acesso a grandes quantidades de dados antes de consertarmos isso. Acreditamos que existam outros”, destacou. “E, quando os encontrarmos, vamos bani-los e avisar a todos os afetados”.

Os anúncios não continham nenhuma menção à consultoria política acusada de usar os dados vazados, Cambridge Analytica. A empresa britânica negou ter cometido algum tipo de infração.

Em 2011, cerca de três anos antes da violação, o Facebook já havia recebido um aviso de que suas políticas de segurança eram muito fracas para impedir abusos pelo Ireland’s Data Protection Commissioner (DPC), e a empresa afirmou ter reforçado sua segurança seguindo as recomendações após uma segunda auditoria com a DPC, em 2012. A empresa também disse que mudou sua plataforma inteiramente em 2014.

 

Facebook coletou histórico de SMS de celulares Android, segundo site

De acordo com o The Verge, site especializado em tecnologia, o Facebook coleciona, há anos, registros de chamadas e dados SMS de dispositivos Android. Vários usuários do Twitter relataram encontrar meses ou anos de dados do histórico de chamadas em seu arquivo de dados do Facebook, que pode ser baixado.

Alguns usuários ficaram assustados com o recente escândalo de privacidade, fazendo com que baixassem todos os dados que a rede armazena em sua conta. Os resultados foram alarmantes para alguns. “Meu arquivo zip apagado do Facebook contém informações sobre todas as chamadas de telefone celular que eu fiz por cerca de um ano”, twittou um usuário sobre a rede. Outros descobriram um padrão semelhante, onde contatos próximos, como membros da família, são os únicos rastreados nos registros de chamadas do Facebook.

De acordo com a Ars Technica, o Facebook tem solicitado acesso aos contatos, dados SMS e histórico de chamadas em dispositivos Android para melhorarem o algoritmo de recomendação de amigos e distinguir entre contatos comerciais e verdadeiras amizades pessoais. A empresa parece estar reunindo esses dados através de seu aplicativo Messenger, que frequentemente solicita que os usuários do Android assumam o controle do cliente SMS padrão.

“A parte mais importante dos aplicativos que ajudam você a fazer conexões é facilitar a localização das pessoas com as quais deseja se conectar”, disse um porta-voz do Facebook. “Portanto, é uma prática amplamente usada começar enviando os contatos do seu telefone pela primeira vez que você faz login no seu smartphone para usar um aplicativo de mensagens ou social”.

A rede afirma que a prática é comum e explicada logo no início do uso do aplicativo, e os dados não são compartilhados com mais ninguém. No entanto, a descoberta veio à tona logo no momento em que a rede social passa por uma de suas piores fases, levantando, mais uma vez, a importância de que as pessoas saibam quais de seus dados estão sendo compartilhados na rede.

 

Marcas deixam de investir na rede

Além dos prejuízos financeiros que o vazamento dos dados já trouxe para o Facebook, algumas marcas estão deixando de investir em publicidade na rede social, ou estão diminuindo drasticamente a frequência de suas postagens. Mozilla (dona do navegador), Sonos (fabricante de equipamentos inteligentes) e o Commerzbank (banco alemão), são empresas que retiraram o Facebook se sua estratégia de marketing digital. Além disso, a ISBA, entidade britânica que reúne agências de publicidade com clientes como Mc Donald’s, Adidas e Unilever, por exemplo, pediu mudanças na plataforma.

O movimento com a hashtag #DeleteFacebook tomou força nas redes sociais. Elon Musk, fundador, CEO e designer da SpaceX e co-fundador da Tesla, zombou da marca Sonos depois dela anunciar que suspenderia a publicidade no Facebook por uma semana. Seus seguidores, então, o desafiaram a deletar as páginas de suas próprias empresas, o que foi feito em poucos minutos.

O empresário é bastante ativo nas mídias sociais, mas afirmou que não apagou as páginas por causa de desafio e nem para fazer um comentário público sobre o Facebook. Em vez disso, ressaltou que excluiu as páginas das empresas porque não gosta da rede social. “Me dá vontade”, ele twittou.

 

 

Embora as duas empresas tenham páginas públicas no Facebook, nenhuma delas pagava por anúncios na plataforma. “Nunca anunciamos no Facebook. Nenhuma das minhas companhias pagava anúncios ou pessoas famosas para fazerem propaganda. Produtos nascem ou morrem pelos seus próprios méritos” ressaltou no Twitter.

Além disso, Musk expressou sua desconfiança quanto ao modo como o Facebook lida com os dados do consumidor. Em resposta à reportagem da Ars Technica, alegando que o Facebook coletou dados dos celulares dos usuários, o empresário twittou “Schocker”. Seus comentários sobre a empresa ocorreram em um momento em que o CEO Mark Zuckerberg e a COO Sheryl Sandberg estão defendendo uma grande onda de críticas após o escândalo.

De acordo com o Meio & Mensagem, diversas empresas estão diminuindo seus números de posts nos últimos 90 dias na rede social. A Coca-Cola, que possui 107 milhões de seguidores, postou apenas 10 veze nos últimos 10 dias; o Mc Donald’s conta com 76 milhões de seguidores e teve 133 postagens; Já a Nike por exemplo, com 44,8 milhões de seguidores, postou apenas 6 vezes e a Adidas 4 vezes, com 33 milhões de seguidores.

Esses exemplos mostram como a rede social está perdendo sua credibilidade com as marcas, não apenas pelo vazamento de dados, mas também devido às mudanças recentes na apresentação de métricas aos anunciantes e as mudanças no alcance de publicações de marcas no feed de notícias.

Para Rodrigo Soriano, CEO da Airfluences, em entrevista ao Meio & Mensagem, as marcas terão um grande desafio após crise no Facebook de aumentarem a qualidade do conteúdo. “Houve um investimento muito grande de mídia ao longo dos anos para criar base de fãs e audiência. A partir do momento que você tem o questionamento de credibilidade de plataforma, acaba se tendo uma retração de usuários, porém não acredito que isso venha acontecer de imediato. O que será muito cobrado é a qualidade das informações que as páginas das marcas produzem”, afirmou.

Muitos usuários, agora, percebem que o uso de plataformas de mídia social não é gratuito, já que pagam com atenção a anúncios personalizados e com a perda de privacidade sobre as informações pessoais e interações sociais. No entanto, mesmo com milhões de usuários exigindo uma ação após a denúncia do Cambridge Analytica, é muito provável que o modelo de negócios das plataformas de mídia social – que é monetizar os dados dos usuários – não mude.

Para o Facebook, nas próximas semanas, o grande dilema será decidir o quão transparente ele quer ser com os seus usuários sobre como seus dados são compartilhados e monetizados. A empresa prometeu, até agora, mais controle sobre o uso de dados por terceiros e ferramentas mais salientes para os usuários individuais controlarem quais aplicativos de empresa podem acessar suas informações.

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