Artigos Reamp

Reamper Lab #26 – Assédio no mercado de comunicação em São Paulo

Recebemos Ken Fujioka e Lara Thomazini, do Grupo de Planejamento

No Reamper Lab desta semana (12/04), recebemos Ken Fujioka e Lara Thomazini, do Grupo de Planejamento e grandes atores contra o assédio no mercado publicitário brasileiro, para um bate-papo sobre a pesquisa “Hostilidade, silêncio e omissão: o retrato do assédio no mercado de comunicação de São Paulo” (que pode ser conferido na íntegra),  realizada pelo grupo com profissionais do setor.

O estudo quantitativo foi realizado em outubro de 2017, com 1400 respondentes de São Paulo, sendo eles 959 mulheres (68%) e 441 homens (32%) com a média de idade de 33 anos. Durante a conversa, os especialistas ressaltaram a importância de falarmos sobre assédio moral e sexual dentro do ambiente de trabalho, e apresentaram números que foram coletados a partir dos entrevistados sobre o tema. “Sabemos que está na hora de pararmos de fingir que nada está acontecendo e começarmos a agir. Não somos quaisquer mensageiros, fazemos parte do sistema e alguns de nós são líderes dele. Somos parte do problema até decidirmos ser parte da solução”, destacou Lara.

 

Fonte: Grupo de Planejamento

 

Fonte: Grupo de Planejamento

 

Existem diversas interpretações sobre assédio moral e sexual, mesmo com as definições jurídicas. Muitas situações que já estão normalizadas no mercado, podem ser consideradas tipos de assédio moral, como por exemplo as citadas pelos profissionais: marcar repetidamente tarefas com prazos impossíveis, humilhar e constranger alguém continuamente e subestimar esforços de uma pessoa no ambiente de trabalho.

Por outro lado, ainda existe uma grande confusão entre assédio sexual e moral. Situações em que consideramos assédio sexual, como por exemplo piadas sexistas, podem estar enquadradas em assédio moral. Há exceções, claro, mas geralmente, assédio sexual se configura quando o assediador tira proveito de uma condição hierárquica superior. Todas as respostas dadas durante a pesquisa do Grupo de Planejamento foram dadas a partir dessas duas definições.

9 em cada 10 mulheres e quase 8 a cada 10 homens afirmam já terem sofrido algum tipo de assédio em ambientes profissionais. Esse número deixa claro que o problema não é apenas pontual, mas algo que abrange todas as esferas do ambiente de trabalho. “Esse ambiente hostil fica ainda mais claro quando olhamos para a frequência desses assédios. Não estamos falando de uma questão pontual e episódios esporádicos, mas algo que acontece sempre, passando a ser parte de uma cultura de mercado”, ressaltou Ken.

Quando falamos em assédio moral, por exemplo, 99% dos respondentes afirmam que essas situações ocorrem no ambiente de trabalho, e 89% das mulheres e 85% dos homens afirmam que são situações frequentes. Em relação ao assédio sexual, 98% dos respondentes afirmam que esse tipo de situação ocorre, e 67% das mulheres confirmam que são frequentes.

 

Fonte: Grupo de Planejamento

 

A partir das pessoas que já foram assediadas moralmente:

Os resultados apontam para uma situação ainda preocupante: a existência de um ciclo onde assediados e assediadores são encontrados em diferentes níveis hierárquicos. Presidentes ou sócios, por exemplo, são as pessoas que ditam as culturas das empresas e são apontados por um terço dos respondentes como um de seus assediadores. Além disso, 22% dos estagiários ou assistentes dizem já terem sido assediados ao menos uma vez por uma dessas pessoas. Ou seja, um a cada cinco jovens, em seu começo de carreira – muitas vezes em seus primeiros empregos – já foram assediados.

Os diretores são, na maioria das vezes, os principais líderes de times das agências e ao mesmo tempo, os que mais dizem que foram assediados e os que mais são citados como assediadores: 83% dos diretores dizem que já foram assediados moralmente ao menos uma vez; 63% dos respondentes dizem que já foram assediados ao menos uma vez por alguém em cargo de diretoria.

Segundo os pesquisadores, estes diretores que foram assediados ao longo de suas carreiras, acabam interiorizando o comportamento de assédio e, agora, passam a diante para as suas equipes, completando um ciclo. Mas é claro que ele não acontece de maneira isolada e também existem pressões externas, principalmente de clientes de agências. Do total dos respondentes, 22% dizem já terem sido assediados moralmente por clientes; 18% afirmam terem sido assediados moralmente por clientes de nível hierárquico superior e 12% por clientes de nível hierárquico semelhante. Esse número é ainda maior entre profissionais de atendimento homens: 47% deles afirmam já terem sido assediados moralmente, ao menos uma vez, por clientes de nível hierárquico superior.

 

Fonte: Grupo de Planejamento

 

“A dinâmica entre agências e clientes é, portanto, parte importante do problema. Não podemos olhar apenas para dentro das agências, precisamos prestar atenção em todo o ecossistema da indústria”, completou Fujioka.

 

Assédio moral x assédio sexual

Ambientes de trabalho refletem, também, alguns dos nossos problemas culturais. Isso acaba gerando vivências muito diferentes, dependendo dos gêneros e da orientação sexual dos indivíduos. A grande verdade é que é pior para as mulheres. 89% delas afirmaram ouvirem piadas sexistas onde são o alvo, 54% dizem ter seus atributos físicos comentados de maneira constrangedora, 43% afirmam ouvir que seu stress e cansaço é “falta de sexo” e 59% sentem que a opinião delas é isolada ou desconsiderada por causa do seu gênero ou orientação sexual.

Nas agências, esses números são ainda piores para as mulheres da criação. 55% delas afirmam ouvir que seu stress e cansaço é “falta de sexo”, e 75% sentem que sua opinião é isolada.

No caso de assédio moral, temos diferenças entre homens e mulheres. 86% das mulheres contra 76% dos homens disseram que já foram assediados moralmente. É importante ressaltar que ambos os números são altos, e mostram a prevalência do assédio no nosso mercado. Até porque, cerca de 70% das pessoas que dizem não terem sido assediadas moralmente, afirmam que já presenciaram alguma situação de assédio em seu ambiente de trabalho.

Já em relação ao assédio sexual, a diferença fica ainda mais explícita: metade das mulheres que responderam à pesquisa já sofreram assédio, enquanto 9% dos homens já foram assediados sexualmente. “Ou seja, além do assédio moral generalizado em homens e mulheres, ainda temos outro problema para enfrentarmos no nosso dia a dia. Nossa vivência em um ambiente hostil é potencializada, simplesmente por sermos mulheres”, completou Lara.

 

Fonte: Grupo de Planejamento

Fonte: Grupo de Planejamento

 

A questão de assédio moral parece ser cultural em ambos os sexos. 90% dos respondentes que disseram que já foram assediados moralmente afirmam que foram, pelo menos uma vez, por um homem, e 66% afirmam que foram, pelo menos uma vez, por uma mulher. No caso de assédio sexual, o problema é majoritariamente causado por homens, sendo 96% de homens e mulheres tendo sido assediados sexualmente por homens, contra 10% por mulheres. Praticamente todas as mulheres (98%), que afirmaram já terem sido assediadas, disseram que seu assediador foi homem, e o mesmo se repete para 72% dos homens que já foram assediados sexualmente.

 

Fonte: Grupo de Planejamento

 

Esse tipo de situação de assédio pode gerar, até mesmo, problemas de saúde. 62% das mulheres e 51% dos homens afirmam que já sofreram algum problema de saúde decorrente de assédio moral, e 35% das mulheres dizem ter sentido algum sintoma físico decorrente de assédio sexual. Esses sintomas incluem depressão, insônia, ansiedade, crises de choro, falta de ar e, até mesmo, pensamentos suicidas.

 

Fonte: Grupo de Planejamento

 

Uma em cada duas mulheres afirmam já terem sofrido assédio sexual. Destas, 19% afirmam terem sido assediadas por clientes e 31% por sócios ou presidentes de agências. Quando falamos de assédio sexual, sabemos que não se trata apenas de ouvir comentários constrangedores ou intimidadores, como ilustram 78% dos relatos femininos. Além deles, 39% das respondentes contaram que sofreram abuso sexual físico.

Nesta pesquisa, foi pedido que os respondentes contassem relatos de assédio pelos quais já passaram. No total foram mais de mil histórias anônimas, interpretadas pela atriz no vídeo abaixo:

 

 

Como podemos denunciar e quais são os principais fatores?

Nosso mercado não chegou nesse estágio por acaso. “Se vivemos hoje nesse ambiente hostil, é porque nos silenciamos por décadas diante de assédios. Não denunciamos, fomos coniventes, não tomamos providencias reais, não criamos uma rede de apoio e nem canais confiáveis para denúncias. Silêncio alimenta hostilidade”, ressaltou Ken.

Um dos exemplos de falta de apoio é o fato de que as pessoas não têm certeza se podem encontrá-lo em seus líderes para tratar do assunto. 33% das mulheres dizem que nunca encontraram apoio em outras mulheres em cargo de chefia para tratar do assunto, e 59% não encontraram apoio em homens. Já em relação aos homens, 58% deles disseram nunca encontrarem apoio em mulheres em cargo de chefia e 67% em homens.

Existem alguns fatores paralisantes na hora de denunciar um assédio, como: o medo de ser julgado, de ser demitido ou sofrer algum tipo de retaliação (apenas um quarto das mulheres e um quinto dos homens reagem na hora para tentarem se defender); a falta de ferramentas ou espaços de denúncias confiáveis dentro das empresas (apenas 12% das mulheres e 8% dos homens buscaram o RH da empresa para tratar sobre o assunto, e 87% dos respondentes dizem não trabalhar em empresas que disponibilizam ferramentas específicas para conter assédio); e a falta de informações e conhecimento sobre o assunto, que acaba gerando insegurança e faz com que a pessoa se pergunte se ela realmente está sofrendo assédio.

 

Fonte: Grupo de Planejamento

 

Fonte: Grupo de Planejamento

 

A falta de denúncias, que são o que colaboram para providências, acaba criando um funil de ineficiência. Das 823 mulheres respondentes que disseram já terem sofrido alguma forma de assédio moral, só 101 denunciaram, ou seja, apenas 12%. Destas, apenas 17 viram alguma providência ser tomada: em 6 delas o assediador foi demitido, em 5 foi notificado, em 4 houve realocação de uma das partes para outro projeto e, em 2 desses casos, as mulheres que denunciaram assédio foram demitidas. No caso dos homens, a situação não é melhor. Dos 333 homens que disseram já terem sofrido assédio moral, apenas 32 denunciaram, menos de 10%, e apenas 3 deles viram alguma providência ser tomada.

Em relação aos assédios sexuais, os números são ainda menores: das 496 mulheres que sofreram assédio, apenas 18 delas denunciaram (3%), e 3 delas viram providências; dos homens, 42 disseram ter sofrido assédio, apenas 3 deles formalizaram e 2 viram providências.

 

Fonte: Grupo de Planejamento

 

Quais providências podem ser tomadas?

Sem conhecimentos e ferramentas, não existe mudança. Mesmo com o tema de assédio sexual e moral estando em pauta, as pessoas não acreditam em uma melhora na situação. A maioria sabe que o tema é discutido mais hoje do que no passado, mas a situação ainda continua igual – ou pior. Para o assédio moral, apenas 14% acreditam que os casos estão diminuindo, e assédio sexual, apenas 28% deles.

Apenas falar sobre o assunto não é o suficiente, e é preciso também oferecer canais reais de proteção às vítimas. O Grupo de Planejamento acredita em situações práticas para melhorar a situação em ambiente de trabalho do nosso mercado, e três delas já estão em curso, inclusive sendo aplicadas pela Reamp:

1. Posicionar-se oficialmente sobre o assunto: é recomendado que a liderança mostre a pesquisa internamente, além de declarar, de agora em diante, tolerância zero contra o assédio no seu ambiente de trabalho – incluindo escritórios e eventos profissionais, tais como festas de fim de ano;

2. Criar e/ou divulgar canais oficiais de orientação e denúncias: é recomendado que a liderança da empresa explicite ao máximo os canais de orientação e denúncia. Se eles já existem, sejam eles próprios ou de sua holding, é recomendado que sejam ampla e continuamente divulgados. Caso ainda não existam, é recomendado que seja um projeto prioritário;

3. Produzir e distribuir material de orientação sobre assédio: é recomendado que a liderança da empresa disponibilize um material de fácil acesso, contendo as definições de assédio moral e sexual, bem como exemplos de claro entendimento.

Muito obrigado pela participação de todos, pessoal! O assunto é extremamente importante de ser cada vez mais falado!

 

 

 

 

Clique para comentar

Deixe seu comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Início